sinto saudades de tudo inclusive de mim mesmo

por Simone Landau

Escrever sobre arte é um exercício, uma tentativa de leitura do trabalho do artista. É a proposição de um diálogo, que pode nascer de diálogos anteriores. Para sugerir uma aproximação possível com os trabalhos aqui expostos, tomo por empréstimo dois conceitos de Ismail Xavier - transparência e opacidade - que marcam discussões teóricas de uma área próxima, o cinema, há mais de três décadas, mas que ainda guardam um certo frescor.

A ideia de transparência é sugerida quando o que é representado surge aos nossos olhos como se todos os dispositivos geradores da imagem estivessem invisíveis, mas se esses deixam indícios, se nos permitem identificá-los como camadas na construção da mesma, uma certa opacidade é revelada.

Esta opacidade, identificada em diversos níveis, pode ser percebida na série que Rogério Ghomes mostra nesta exposição. O Parque Nacional do Iguaçu, que nos é tão familiar, ganha ares estranhos, escapando ao reconhecimento de infinitos registros já conhecidos.
Imagens horizontais, paradigma de representações de paisagem, são intermeadas por uma sequência de imagens verticais, em uma narrativa que guarda a memória do andar por entre as quedas, em enquadramentos que privilegiam a força, quando o intenso deslocamento reduz temporariamente a transparência das águas.

Mas a esta opacidade, sobrepõe-se outra. A bruma reconhecida convive com outros traços que revelam a ação de um obturador e a presença das lentes. Identificada assim, a fotografia é revelada, carregando consigo o olhar poético do autor.

E se as imagens guardam a memória de sua fatura, as frases instaladas sobre as janelas, títulos de outras séries de autoria do artista, trazem para dentro do espaço lembranças de outras imagens, além de ressaltar as características arquitetônicas peculiares do espaço.

Se diálogos podem ser construídos sobre uma obra de arte é porque na sua essência já está instaurada a base da comunicação; se inicialmente o artista é fruidor de seu próprio trabalho, a obra é o meio pelo qual ele se comunica com o outro, e uma exposição é o momento privilegiado para a instauração destas conversas. Um texto é apenas uma leitura possível.