Pistas para olhar de novo o mundo

por Moacir dos Anjos

Muito pode ser dito da obra de um artista que por quase três décadas refaz o mundo que enxerga em imagens partilhadas quase sempre na forma de fotografias. Talvez pouco desse muito a ser potencialmente falado ou escrito, contudo, seja de fato necessário ou importante, posto que a palavra sempre falta quando o olhar tem tempo. 

Traduzir em discurso articulado o que Rogério Ghomes tenta produzir em seus trabalhos é tarefa destinada, ademais, sempre a relativo malogro. Não por ser obra fechada a interpretações ou de compreensão difícil. Ao contrário, suas imagens usualmente acolhem a quase todos que se detêm diante delas, ainda que nunca de modo idêntico. A razão da dificuldade é mais a de descrever aquilo que, embora implicado nas fotografias do artista, não está nelas visível, posto que os trabalhos de Rogério Ghomes não raro confundem o que é esperado de imagens construídas por uma câmera: querem mostrar ao mesmo tempo que escondem; dizer e igualmente calar diante do que figuram. Não há, entretanto, como deixar de tentar enfrentá-las com palavras. Não para atribuir-lhes um sentido claro e uno ou para decifrar o que não requer explicação, mas para pontuar algumas de suas dobras ou incontornáveis obsessões. Para tentar entender seu poder de afetação. 

Não há começo certo para esse intento de tradução ou qualquer intenção de fazer cronologias. Trata-se apenas de pôr em destaque alguns dos traços da obra do artista e aproximá-los entre si. E uma das mais evidentes dessas características é o fato de, embora ancorada em imagens, não abandonar o desejo pela linguagem escrita, sustentando uma vontade de proximidade e mistura. Há mesmo trabalhos em que primeiro se sobressaem palavras ou frases, confundindo o signo escrito com a coisa que é retratada. Em um deles, lê-se alerta escrito por cima de nuvens e céu azul: “não confie na sua memória”. Aviso ainda sublinhado pelo espelhamento das letras impressas sobre o suporte fotográfico que lembra, paradoxalmente através de palavras, que o olhar é construtor de subjetividades e que a história de cada um é reencenação do agora. Um elogio torto mas firme à prática de registrar o esquecimento que é própria da fotografia.

A tensão que existe entre imagens e textos em alguns trabalhos aparece também nos muitos sugestivos títulos que contribuem para os possíveis significados das imagens a que se referem. Um deles, que parece ser um pedido ou prece – Preciso acreditar que ao fechar os olhos o mundo continua aqui –, acompanha dois trípticos de imagens que parecem ser de um jardim ou bosque iluminado pela luz do dia visto desde o interior sombreado de uma casa; imagens filtradas por uma cortina fina que tanto esconde quanto mostra o que a câmera captura. Esse fora e esse dentro implicados nas fotografias sugerem uma oposição entre o vasto e o particular ou entre a paisagem e o íntimo que o artista repõe, em termos diferentes, em vários outros de seus projetos. Em Olhai, Rogério Ghomes alinha três imagens do mar capturadas do ponto de vista de quem está na praia de modo a criar um horizonte acidentado, um desvio da continuidade topológica do mundo.

Em Voltando para casa, por sua vez, fragmenta e multiplica as imagens do céu registradas desde o interior de um avião. Em ambos os casos, as paisagens abertas contrastam não somente com o lugar fechado a partir de onde foram feitas mas também com a visada singular que afirmam. Como se o que se vê, por mais amplo que seja, fosse em verdade espelho do que cada um sente.

Essa introspecção fotográfica se insinua ainda na falta de contornos precisos daquilo que é fixado em imagens, mesmo quando referidas a algo tão bem definido quanto a distância entre duas cidades e o tempo gasto para percorrê-la. Apesar do seu título remeter a informações inequívocas, as fotografias que compõem LDA_CWB // 379KM_4h46MIN são propositadamente desfocadas, borrando o que poderia haver de específico naquelas coordenadas. As cores quentes e enevoadas das paisagens despovoadas – tomadas, provavelmente, do interior de um automóvel em movimento – sugerem estranhamente frieza e distanciamento, revelando talvez mais do estado de espírito de quem as recriou em fotografias do que algo que fosse dado a qualquer um registrar fazendo travessia semelhante. Sensação que parece também se inscrever nas fotografias de um parque de diversões ao anoitecer reunidas sob o título de Space Project. Mais do que exibir as características supostamente próprias daquele contexto, as imagens parecem segredar a necessidade de silêncio ou um sentimento de melancolia, em aberto contraste com o que comumente se espera de um testemunho visual de ambiente tão barulhento e festivo.

É curioso que em quase nenhum dos trabalhos do artista exista a presença da figura humana, sendo mais frequente encontrar neles espaços sem gente. Embora sempre subtendidos na impressão que as fotografias deixam em quem as examina, somente em poucas ocasiões o registro dos corpos que habitam os territórios fixados são postos à vista. Uma dessas exceções é o políptico composto de oito imagens – arranjadas de forma a ter um vazio no centro – que mostram, como se fossem stills de uma cena filmada à distância, um jovem correndo na praia acompanhado de um cão. Não há qualquer intenção naturalista na captura dessas imagens tomadas ao acaso, às quais é dado um título desconcertante: Incrível como um distúrbio afeta a credibilidade. Tudo ali é filtrado por um vermelho intenso, de alguma maneira torcendo os sentidos que essa prosaica ação poderia de outro modo possuir. Sentidos que são formados através do olhar de quem considera sua estranheza. O que é crível ou não nunca é, aqui, algo objetivo, sendo antes resultado de uma negociação em aberto que Rogério Ghomes estabelece com qualquer um que se depare com suas fotografias.

Outra importante operação realizada pelo artista é a de compor ou propor significados das imagens que produz por meio de edições em que as agrupa como se fossem parte de uma coleção que não tem fim certo. Em Donde estoy, estoy a esperarte, aproxima mais de trinta fotografias de bancos vazios tomadas, ao longo do tempo, em parques e praças de várias cidades. Se o título geral e a imagem isolada de cada um deles podem sugerir sentimentos de expectativa afetiva ou lembrar perdas passadas, juntá-las todas sobre uma mesma superfície as torna também partes de uma tipologia visual de mobiliário urbano, adicionando ao trabalho uma camada informativa contrastante. É na fricção entre esses dois conjuntos de indícios – um subjetivo, o outro não – que possíveis sentidos das fotografias são evocados por quem as examina com atenção. 

Há ainda duas outras estratégias aparentadas à edição aglutinadora de imagens que parecem importar à Rogério Ghomes para desdobrar os paradoxos que movem sua produção. Em uma delas, busca se acercar de um mesmo objeto por ângulos diversos, como se hesitasse diante dele quanto ao ponto de vista que melhor captura sua singularidade. É assim em Plaza Alemania, em que mais de um monumento público é registrado em fotografias tomadas a partir de posições distintas ao redor deles e depois expostas em grade, como se não pudesse haver hierarquia possível entre as variadas perspectivas do olhar. Como se fosse impraticável decidir sobre qual imagem melhor apresenta e resume o que se enxerga. Na outra estratégia adotada, o artista não muda o lugar de onde captura paisagens naturais ou construídas, mas o faz em dois momentos diferentes, registrando as pequenas alterações que a passagem do tempo produz nelas. Dando a esses dípticos de paisagens quase idênticas o título de Todos precisam de um espelho para saber quem são, lembra que a imagem de si é produzida na relação com os outros e afirma o quão contingencial e provisória é qualquer representação fotográfica.

O espelhamento como estratégia cognitiva é confirmado na série Barroc, em que apinhadas vitrines de antiquários são fotografadas das calçadas em hora do dia em que a luz permite fragmentar e fundir, em reflexos, imagens de dentro das lojas e do lado de fora delas. Se essas fotografias parecem imediatamente afirmar a ostensiva presença de quem as tomou ali, elas igualmente aparentam ser paisagens feitas de cacos que engolfam quem as olha e as implicam como partícipes delas. Sugerem, portanto, não somente um desmanche dos limites entre espaços distintos, mas também uma equiparação entre ver e conhecer aquilo que nenhuma formulação discursiva pode substituir ou compensar. Fiel ao impossível projeto de mostrar velando, Rogério Ghomes oferece, em busca construtiva serena, pistas para olhar de novo e ainda o mundo.


Clues for a new gaze upon the world

by Moacir dos Anjos

There is much to say about the work of an artist who – for almost three decades now – has been rebuilding through images, often photographs, the world as he sees it. Maybe a little of the much to be potentially spoken or written, however, is in fact necessary or important, for we always lack words when contemplating. Translating into articulate speech what Rogério Ghomes tries to express through his works can also be always relatively frustrating. That does not mean the work is closed for interpretations or hard to understand. On the contrary, his images usually embrace almost every observer in front of them, even though not in identical ways. The reason for difficulty lies on describing what, though implied in the artist’s photographs, is not visible, since Rogério Ghomes’s works often subvert what is expected from camera-constructed images: they want to show and to hide at the same time; say and equally silence what they portray. It is impossible, however, to try not to confront them with words. Not with the intention to provide them with a clear and only meaning, or to decipher what does not require explanation, but instead to point some of their extensions or inescapable obsessions. That is, to try to understand their power of affectedness.

There is no right beginning for this intent of translation – or, actually, any intention of establishing chronologies. The best option seems to be highlighting some details of the artist’s work and make connections between them. One of the most evident characteristics is that, though consisting basically of images, his work does not neglect the desire for written language, sustaining the inclination for proximity and blending. In fact, there are some works in which the words or phrases stand out in the first place, confusing the written sign with the “thing” portrayed. In one of them, there is a warning written over the clouds and the blue sky: “do not trust your memory”. This warning is even stressed by the mirroring of printed letters on the photographic support that reminds – through words, paradoxically – the gaze is responsible for building subjectivities, and that one self’s history is the reenactment of the now. A twisted but strong compliment on the practice of capturing the oblivion of photography itself.

The tension between images and text in some works can also be seen in many suggestive titles, which contribute to construct possible meanings for the images they refer to. One of them, which seem to be a request or prayer – “Preciso acreditar que ao fechar os olhos o mundo continua aqui” (I need to believe that if I close my eyes the world will still be here) – , includes two triptychs of what looks like a garden or forest lighted by the sunshine seen from the interior of a shadowed house; images filtered by a thin curtain that hides as much as it reveals what is captured by the camera. The “inside” and “outside” implied in the photographs suggest an opposition between the spacious and the private, or between the landscape and the intimate – features that the artist brings up, in different terms, in many other of his projects. In “Olhai” (Look), Rogério Ghomes aligns three sea pictures from the point of view of a person standing by the beach, so that it creates a rough horizon line – a deviation from the topological continuity of the world. In “Voltando para Casa” (Coming Back Home), in turn, the artist fragments and multiplies the sky images captured from the inside of a plane. In both cases, the open landscapes contrast not only with the indoors where the pictures were taken but also with the unique vision they assure. As if what is visible, as wide as it can be, was in fact a reflection of one’s feelings.

Such photographic introspection is also noticeable in the lack of precise outlines of what is displayed in the images, even when they refer to something as well-defined as the distance between two cities and the time spent on the road. Despite the title reference on unequivocal information, the photographs included in LDA_CWB // 379KM_4h46MIN are purposely unfocused; blurring what there could be of specific on such coordinates. The hot yet misty colors of unpopulated landscapes – taken probably from the inside of a moving vehicle – strangely suggest coldness and detachment, maybe revealing the author’s unique state of mind more than what could have resulted from someone else on the same route. The same feeling applies as well to the photographs taken of the dusk in an amusement park, grouped under the title Space Project. More than portraying the supposedly true characteristics of that environment, the images seem to secrete the need for silence or a feeling of melancholia, in a clear contrast with what we normally expect to witness in such a noisy and festive place.

It is curious that the presence of human figures is hardly seen throughout the artist’s work – places with no persons are much more frequently portrayed. Although they are always implicit in the impression the photographs cause on the observers, only in a few moments the capturing of bodies inhabiting the territories are on sight. One of these exceptions is the eight-image polyptych – arranged in such a way the center is empty – that shows, as if they were frames of a long-distance scene, a young man jogging by the beach accompanied by his dog. There is no naturalist intention in the capturing of these random images, given a disconcerting title: “Incrível como um distúrbio afeta a credibilidade” (It is amazing how a disorder affects credibility). Every one of the images has an intense red filter applied, somehow twisting the meanings this prosaic action could otherwise assume. Meanings that are formed through the gaze of the observer – who perceives their strangeness. What is credible or not is never, in this case, subjective, being therefore consequence of an open negotiation Rogério Ghomes establishes with everyone contemplating his photographs.

Another important operation carried by the artist is to compose or propose meanings to the images he produces through editing them in groups, as if they were part of a collection with no determined ending. In “Donde estoy, estoy a esperar te” (Wherever I am, I am waiting for you), he puts together more than thirty photographs of empty benches, taken over time in parks and squares of several cities. If the general title and the particular images of every one of them can suggest feelings such as affective expectation or remind past losses, putting them all together over the same surface also makes them part of a urban furniture visual topology, adding to the work a contrasting informative layer. By combining both groups of indications – one subjective, the other not – possible meanings on the photographs are evoked as we pay close attention.

There are, also, another two strategies that become apparent with the imagery agglutination edition Rogério Ghomes seems to take into account while unfolding the paradoxes in his production. In the first, he seeks to approach the same object from several angles, as if he hesitated to decide what point of view best capture its singularity. It is so in Plaza Alemania, in which not just one public monument is captured in photographs taken from various positions around them and afterwards displayed in a grid, as if it was impossible to define a hierarchy between the many perspectives. As if it was impractical to decide what image best presents and sums up what one sees. In the other strategy used, the artist does not change the position where he captures human made or natural landscapes, but he does so in two distinct moments, capturing the small alterations caused by the passage of time. These diptychs of almost identical landscapes were given the title “Todos precisam de um espelho para saber quem são” (Everyone needs a mirror to know who they are), and they reminds us that the image itself is built in the relationship with the others, claiming how contingency and provisional is any photographic representation.

The mirroring as cognitive strategy is confirmed in the series Barroc, in which crowded antiques’ shop windows are photographed from the sidewalks, in a time of the day that causes the light to fragment and merge, in reflections, images from the inside and the outside of the stores. If these photographs seem to immediately assure the ostensive presence of the taker, they also appear to be landscapes made of shards engulfing the observers and implying their participation. They thus suggest not only a dismantling of the boundaries between distinct environments, but also an equalization between seeing and knowing what no discursive formulation can replace or compensate. Faithful to the impossible project of showing and hiding, Rogério Ghomes offers – in a serene constructive searching – clues for a new gaze upon the world.


PISTAS PARA MIRAR NUEVAMENTE EL MUNDO

por Moacir dos Anjos

Pueden decirse muchas cosas acerca de la obra de un artista que por casi tres décadas se dedicó a rehacer el mundo que observa en medio de imágenes divididas, casi siempre en formato de fotografías. Tal vez, un poco de ese mucho a ser potencialmente hablado o escrito, con todo, sea –de hecho- necesario o importante, puesto que siempre falta una palabra cuando sobra tiempo para mirar.

Traducir en un discurso articulado lo que Rogerio Ghomes intenta producir en sus trabajos, es por encima de todas las cosas, una tarea destinada al fracaso. No es por ser una obra cerrada a las interpretaciones o de difícil comprensión. Por el contrario, sus imágenes habitualmente cobijan a casi todos los que se detienen delante de ellas, aunque nunca sea de la misma manera. El motivo de esa dificultad es más el hecho de describir algo que por más que esté implícito en sus fotografías, no está a simple vista, debido a que no es de extrañar que los trabajos de Rogerio Ghomes confundan lo que se espera de las imágenes construidas por una cámara: Mostrar y ocultar al mismo tiempo. Decir y callar al mismo tiempo delante de lo que se imagina que es. Pero mientras tanto, no hay como dejar de intentar enfrentarlas con palabras, y no para atribuirles un sentido claro o para descifrar eso que no requiere explicación alguna, pero sí para describir algunos de sus pliegues o ineludibles obsesiones. Para intentar entender su poder de simulación.

No hay un principio adecuado para ese intento de traducción o cualquier intención de hacer alguna cronología. Se trata apenas de destacar algunos de los rasgos de la obra del artista y aproximarlos entre sí. Una de las características más evidentes es el hecho de que, aunque esté basada en imágenes, no abandona el deseo por el lenguaje escrito, manteniendo su intención de mezclar y aproximarse. Hay trabajos donde primero sobresalen las palabras o las frases, confundiendo el trazo escrito con la cosa que es retratada. En uno de ellos, se lee por encima de las nubes y del cielo azul: “No confíe en su memoria”. Un aviso subrayado por el reflejo de las letras impresas sobre el soporte fotográfico que recuerda, de un modo paradójico -a través de las palabras-, que la mirada es una constructora de subjetividades  y que la historia de cada uno es una representación del ahora. Un elogio retorcido pero firme para una práctica que es propia de la fotografía: registrar el olvido.

La tensión que existe entre imágenes y textos en algunos de los trabajos también aparece en los sugestivos títulos que contribuyen para los posibles significados de las imágenes a las que se refieren. Uno de ellos, que parece ser un pedido o una plegaria –Preciso creer que al cerrar los ojos, el mundo continúa aquí-, acompaña dos trípticos de imágenes que parecen ser de un jardín o un bosque iluminado por la luz del día visto desde el interior sombreado de una casa; imágenes filtradas por una cortina fina que esconde tanto cuanto muestra aquello que la cámara consigue captar. Ese dentro y fuera envueltos en las fotografías sugieren una oposición entre lo vasto y lo particular o, entre el paisaje y lo íntimo que el artista repone, en términos diferentes, en varios de sus proyectos. En Mirad (Olhai), Rogerio Ghomes alinea tres imágenes del mar capturadas desde el punto de vista de quien está en la playa, de modo que puede crear un horizonte accidentado, un desvío de la continuidad topológica del mundo. En Volviendo a casa (Voltando para casa), fragmenta y multiplica imágenes del cielo registradas desde el interior de un avión. En ambos casos, los paisajes abiertos no sólo forman un contraste con el lugar cerrado de donde fueron hechas, sino también con ese cuidado singular. Es como si aquello que se ve, por más amplio que sea, fuera en verdad un espejo de lo que siente cada uno de los que ve.

Esa introspección fotográfica aun se insinúa en la falta de contornos precisos de aquello que está fijada en imágenes, justo cuando se refiere a algo tan bien definido como la distancia entre dos ciudades y el tiempo invertido en recorrerlas. A pesar que su título se remite a informaciones indiscutibles, las fotografías que componen LDA_CWB // 379KM_4h46MIN están desenfocadas a propósito, borrando lo que podría haber de específico en aquellas coordenadas. Los colores calientes y nublados de los paisajes despoblados –posiblemente sacadas del interior de un vehículo en movimiento– extrañamente sugieren frialdad y distanciamiento, tal vez revelando un poco más del estado de espíritu de quien recreó en fotografías algo que cualquier otro no podría haber hecho haciendo la misma travesía. La misma sensación también parece estar grabada en las fotografías de un parque de diversiones al anochecer reunidas bajo el título de Proyecto Espacial (Space Project). Más que exhibir las características supuestamente propias de aquel contexto, las imágenes parecen susurrar la necesidad del silencio o un sentimiento de melancolía, en un contraste abierto con lo que comúnmente se espera de un testimonio visual en un ambiente tan bullicioso y festivo.

Es curioso que en casi ninguno de los trabajos del artista exista la presencia de la figura humana. Lo más frecuente es encontrar en ellos espacios sin personas. A pesar de estar sobreentendido en la impresión que la fotografía deja en quien las examina, sólo en contadas ocasiones el registro de los cuerpos que habitan los territorios están a la vista. Una de esas excepciones es el políptico compuesto de ocho imágenes –ordenadas de modo que exista un vacío en el centro de las mismas- que muestran a un joven y a un perro corriendo por la playa, como si fuera una instantánea de una escena filmada a la distancia. No hay una intención naturalista en la captura de esas imágenes tomadas al azar, a las que se les dio un título algo desconcertante: Es increíble como un disturbio afecta a la credibilidad (Incrível como um disturbio afeta a credibilidade). Todo ese conjunto está filtrado por un color rojo intenso, retorciendo -por decirlo de alguna manera- los sentidos que esa acción prosaica podría tener. Sentidos que son formado a través de la mirada de quien considera la rareza de esas imágenes. Lo que es –o no- creíble es aquí, algo objetivo, siendo antes el resultado de una negociación abierta que Rogerio Ghomes establece como cualquier personas que se tope con sus fotografías.

Otro trabajo importante realizado por el artista es el de componer o proponer distintos significados de las imágenes que se producen por medio de las ediciones en que las agrupa como si fueran parte de una colección que no tiene un final definido. Donde estoy, estoy a esperarte, reúne más de treinta fotografías de bancos vacíos sacadas a lo largo del tiempo en parques y plazas de diversas ciudades. Si el título de la obra y la imagen aislada de cada uno de ellos pueden sugerir sentimientos de una expectativa afectiva o traer a la memoria pérdidas del pasado, unir todas las fotografías sobre una misma superficie, también las transforma en parte de una tipología visual del mobiliario urbano. Es en la fricción existente entre esos dos conjuntos de indicios –uno subjetivo, el otro no- en que los posibles sentidos de las fotografías son rememorados por quien las examina con atención.

Todavía existen otras dos estrategias emparentadas con la edición aglutinadora de imágenes que parecen importarle a Rogerio Ghomes para así desdoblar las paradojas que mueven su producción. En una de ellas, se aproxima a un mismo objeto por distintos ángulos, como si dudara respecto al punto de vista que mejor capta su singularidad. Y es así en Plaza Alemania, donde más de un monumento público es registrado en fotografías sacadas a partir de distintas posiciones alrededor de los mismos y luego expuestos a modo de escala, como si no hubiera una posible jerarquía entre las variadas perspectivas de la mirada. Como si fuera impracticable decidir sobre cuál es la mejor imagen que se presenta y resume lo que se está mirando. Otra de las estrategias adoptadas es cuando el artista no cambia de lugar a la hora de captar los paisajes naturales o construidos, los capta en dos momentos diferentes, registrando las pequeñas alteraciones que produce en ellos el paso del tiempo. Con el título de Todos precisan de un espejo para saber quiénes son (Todos precisam de um espelho para saber quem são), esos dípticos de paisajes casi idénticos nos recuerdan que la imagen de sí es producida en relación con los otros y afirma cuanto una representación fotográfica es provisoria y circunstancial.

El acto de relucir como un espejo, a modo de estrategia cognitiva, es confirmado en la serie Barroc, en donde varias vitrinas de anticuarios son fotografiadas desde la calle, en una hora del día donde la luz permite fragmentar y fundir en reflejos, imágenes tomadas desde dentro y fuera de las tiendas. Si esas fotografías parecen afirmar inmediatamente la evidente presencia de quien las sacó, del mismo modo aparentar ser paisajes hechos de pedazos absorbiendo a quien los mira e incluyéndolos como participantes. No solo sugiere una descomposición entre distintos espacios, sino también equipara entre ver y conocer a aquellos que ninguna formulación discursiva pueden sustituir o compensar. Fiel al proyecto imposible de mostrar ocultando, Rogerio Ghomes, en una búsqueda constructiva y serena, muestra pistas para nuevamente mirar al mundo.